Abertura e diversidade que acolhem.
Por Júlia Ramalho
No texto abaixo cumpro uma promessa, mesmo que tardia, com um velho amigo, Milton Nogueira, que partiu desse mundo no dia 23 de maio de 2026.
Em 2025 visitamos Milton Nogueira e Emília em Viena, cidade onde viveram por 20 anos, enquanto Milton trabalhava na ONU e Emília criava seus filhos Cristiano e Saulo. Ao final da viagem, Milton me perguntou se eu iria escrever sobre a experiência em Viena. Eu disse que sim, mas veio a correria de trabalho, demandas familiares e muitas conversas “falando de Viena”. Por fim, acabei não escrevendo.
Milton e a diversidade
Milton e Emília chegaram de mansinho, aos sábados de manhã no projeto Estação Pátio Savassi, em Belo Horizonte. Um espaço criado em parceria com o shopping Pátio Savassi para fazer circular a palavra, a cultura e a diversidade de pensamentos. Depois de 20 anos, estavam retornando de Viena para Belo Horizonte.
Eles se tornaram público cativo do projeto. Nossa proposta de diversidade foi de encontro à forma como Milton via o mundo. Além disso, era um espectador atento, que sempre provocava os palestrantes com perguntas, trazendo novas perspectivas para o público.
Logo, a afinidade nos deu a honra de tê-lo como nosso convidado-palestrante. Ele abordou o tema da Sustentabilidade e Clima. Tema que estava trabalhando após a saída da ONU. A “agenda” de Milton não cabia num tema apenas.
Mas, o mais importante, foi ter tido a oportunidade de ter Milton e Emília como amigos. Dessas amizades que chegam sem propósito, encontram mentes e corações abertos. E passamos a ser convidados para saraus e conversas em sua casa. Milton dizia que, em dia de sarau, a casa toda se preparava para acolher os convidados. Falava do cuidado desde a arrumação ao cheiro que a cozinha exalava desde cedo.
Para Milton e Emília receber era a arte do cuidado e respeito. Isto é, iam muito além da polidez, era acolhimento genuíno expresso na forma humana e ética de ver e lidar com as pessoas e o mundo. Que sorte a minha de tê-los como amigos.
A Viena de Milton
A viagem que fiz, acompanhada pelo meu marido Paulo, foi marcada pela possibilidade de conhecer Viena à luz dos olhos de quem a amava. Milton amava Viena em sua complexidade e simplicidade, em suas muitas camadas, como dizia: “do Império, da Cultura, do Pensamento, da gastronomia, das possibilidades…”
Uma das coisas que mais me marcou no convívio com Milton, foi a capacidade dele de morar 20 anos em Viena e não ter a famosa síndrome de “vira-lata brasileiro”. Vi isto acontecer com muitos brasileiros que moraram fora: por vezes traziam um sotaque pedante para reforçar a permanência no exterior. Por outras, ficavam se queixando de tudo que não funcionava no Brasil. Outros apenas sonhavam em voltar a viver num “mundo civilizado”. Mas Milton tinha humildade, humor e sabedoria para viver o melhor de cada mundo.
Ele soube aproveitar o melhor do Brasil e de Viena. Conseguia ser apaixonado pelas duas culturas sem acreditar que uma deveria ser “melhor que a outra”. Admirava o que cada uma delas tinha de melhor. De forma admirável, Milton demonstrava a capacidade de acomodar o diferente. E também, na Viena de Milton, a diversidade e a inclusão são uma marca. Tão raro vermos isso, ainda mais no mundo de hoje.
Enquanto passeávamos pela cidade conversávamos sobre política, história e cultura. Milton nos explicou como a Áustria foi capaz de “apagar” sua participação no Nazismo. Pela cidade você não vê marcos dessa história, como acontece com Budapeste, por exemplo.
Em compensação, Milton explicou como a cidade passou a ter a inclusão e a diversidade como pilar para restabelecer o bem de todos. Durante vários e vários governos, após a segunda guerra, Viena se manteve aberta a várias culturas e com várias políticas de inclusão. Nos contou como lidavam com os usuários de droga que estavam nas ruas e todo cuidado para que o problema fosse tratado como de saúde pública e não de segurança.
No auge de seus 83 anos ele subia e descia as escadas do metrô com uma agilidade que era difícil acompanhar. Nos mostrou como a cidade fluía sem suas catracas. Nos mostrou como o simples passe de três dias de transporte fazia você viver a mobilidade pela cidade sem limites. Tudo parecia fácil e perto.
Milton soube aproveitar essa facilidade tornando os Cafés no centro de Viena como se fossem uma extensão de casa. Ele diariamente ia de transporte público para a área central tomar um café e ler os jornais, conversar com os garçons, ou mesmo com alguém mais aberto.
Também admirados, eu e Paulo olhávamos e pensávamos: quantas pessoas na idade de Milton têm a oportunidade de fazer isso em qualquer cidade do Brasil? Viver a vida fluida e sem limites? Sem medo de assalto? Sem medo de cair na rua? E com todas essas ofertas e possibilidades de atividades?
Milton e Emília nos mostraram o glamour dos bailes vienenses, dos restaurantes e rooftops elegantes, da arquitetura e dos palácios e jardins imponentes de uma Viena imperial.
Passeamos em museus de história da arte, vimos a casa de Mozart na “Viena Cultural”. E fomos à casa de Freud, conversamos sobre Viktor Frankl e sobre Wittgenstein e o “Círculo de Viena”. Era a chamada “Viena do Pensamento” de Milton.
Ainda passeamos pela Viena do luxo na Karntner Strabe. Desfrutamos da Viena dos sabores das chocolaterias, das essências de óleos, dos mercados de ruas, cafés e carrocinhas de linguiça vienense. A Viena de cheiros e sabores.
Voltamos completamente apaixonados por Viena! E uma pergunta insistia em minha cabeça sobre os roteiros priorizados por nós: Por que Paris? Por que Nova York? Por que Londres? Perguntei a vários amigos: por que falamos tão pouco de Viena para turismo? Talvez porque tivemos mais brasileiros indo a Paris, Nova York e Londres? E assim, uma massa de viajantes e estudantes formaram nossa visão da Europa. Ou talvez, nossas ascendências italianas, portuguesas e espanholas nos influenciaram pela herança cultural.
O fato é que, diferentemente dos outros grandes centros urbanos, Viena é uma cidade que acolhe. É uma cidade limpa, organizada, aberta, não é super populosa e nem opressiva. É uma cidade complexa e simples ao mesmo tempo.
Ou talvez eu tenha tido a sorte e privilégio de conhecer a Viena de Milton e Emília!! Mas, sobretudo, o privilégio de compartilhar com Milton e Emília um olhar curioso que acolhe as diversidades culturais e admira cidades que fazem disso uma experiência viva.
Ontem tive a oportunidade de dizer adeus ao meu amigo e presenciar uma linda e emocionante cerimônia preparada com muito amor e cuidado por Emília, Cristiano e Saulo. Não há dúvida que Milton viveu plenamente e nos deixou saudade.
Meu eterno agradecimento pela abertura, generosidade e humor ímpar de Milton Nogueira, que os anjos do céu o recebam com um bom copo de whisky e conversas profundas sobre a morte. Siga pela luz e em paz meu amigo!






