O tempo e a saúde mental viraram luxo
Por Júlia Ramalho
Você é dono do seu tempo? Você consegue se sentir em equilíbrio com suas demandas e seus desejos?
Se pararmos para pensar, muitos hoje levam uma vida onde o tempo é determinado pelas demandas do trabalho e rotinas pessoais. Se sentem presos numa engrenagem de afazeres onde impera a preocupação contínua de produzir.
A tendência da moda aponta as saúdes física e mental como o “must” do momento. Todos querem viver bem. E muito. Há uma infinidade de novas tecnologias, medicamentos e tratamentos prometendo a longevidade e o bem-estar.
Diferentes de outros tempos, os muito ricos não ostentam marcas. Ostentam conforto e tempo para fazerem o que querem e a hora que querem. O horário da academia deve ser no meio da manhã ou no meio da tarde, no “horário de herdeiro”, isto é, muito longe dos horários daqueles que dependem do relógio para regular a rotina e o trabalho.
A roupa da academia agora é um “statment” – uma declaração de que não precisa se preocupar com o tempo – ela é usada para indicar que não há pressa, nem formalidades, há todo o tempo do mundo para se cuidar.
A viagem não precisa ser para assimilar e conhecer uma cultura. Nunca se pode ver, ouvir e saber tanto sobre culturas diferentes sem ter que sairmos do lugar. A busca não é para conhecer, não existe o “ter que fazer” na viagem. Ao contrário, as viagens são para dormir e desconectar. Os spas se tornaram lugares de “retiro espiritual”. Onde a meta não é conhecer nada, mas sim, descansar, fazer detox, desconectar, reprogramar a mente etc. Mais do que ir à algum lugar, o objetivo é parar. Ter tempo para não produzir e não ter que fazer nada.
Pesquisas apontam, ainda, um novo movimento: a saída dos grandes centros urbanos para o interior. Cidades menores, onde a vida é mais próxima a natureza e o tempo passa mais devagar, surgem como o novo luxo para se viver. Longe dos grandes centros onde imperam a violência, trânsito, poluição, correria e necessidade de produção; há uma busca por mais calma e sentido.
COMO CHEGAMOS AQUI?
O tempo – e a percepção sobre ele – é um conceito muito estudado na filosofia e na psicologia. Conforme vivenciamos nossas emoções, a percepção do tempo é alterada. O que toca nossas emoções profundamente e de forma positiva nos faz viver com intensidade. O tempo deixa de ser, então, um elemento importante para as nossas inquietações. Em outras palavras, ele praticamente deixa de existir.
Sabemos que o tempo é uma abstração humana. E, desde o século XVIII, vimos ele ser distorcido no Ocidente através de uma função: produzir!
A frase “tempo é dinheiro”, atribuída a Benjamin Franklin e repetida por muitos ao longo dos anos, aliada ao nosso sistema de produção, moldou nossa forma de ver e estar no mundo. Como diz o ditado: uma mentira repetida muitas vezes vira verdade.
Mas de fato, não, o tempo não é dinheiro! Tempo pode ser a medida da vida, a janela de possibilidade que reconhecemos nessa jornada entre o nosso nascimento e nossa morte. E, ele pode ser medido e percebido de várias maneiras.
À medida que fomos acelerando nossas interações on-line, que aumentamos a velocidade de produção, nossa vida foi se tornando cada vez mais regida pelo próprio tempo de produzir. Sem perceber, entramos nessa nova lógica ao nos questionar se estamos produzindo o suficiente, vivendo o suficiente, gozando o suficiente. Tudo é medido por uma engrenagem de “poder mais”, mesmo quando isso significa menos conexão, afeto e menos presença.
As pessoas estão exaustas! Há um trabalho e vida em modo acelerado que não trouxe mais bem-estar, nem motivação e nem sentido.
Nosso estilo de vida, de super conexão digital e produção, está esgotando nossa capacidade de conexão emocional e nossa curiosidade de saber.
A SOCIEDADE DO CANSAÇO NA CLÍNICA
Há muito temos escutado na clínica que as pessoas estão cansadas. Não um cansaço de fim de ano, mas um cansaço existencial. É como se aos poucos tudo tivesse se tornado performance e obrigação. Quanto mais a vida é organizada em checklists, mais parece que as obrigações se multiplicam, e nosso próprio Ser se distancia da nossa existência.
A queixa é de “correria”, mesmo que não se saiba para onde. Quando perguntamos “como vai?” já nem nos preocupamos em saber a resposta, não conseguimos mais ouvir informações e estabelecer diálogos. Não queremos saber dos outros e muito menos de nós: é preciso correr, é preciso produzir!
Paralelo a isso, cerca de 72 milhões de brasileiros estão inadimplentes, um recorde histórico, com um valor total de dívidas que se aproxima de R$ 500 bilhões. Isto é, 4 em cada 10 brasileiros estão endividados. E estudo do Serasa aponta que 57 milhões de brasileiros estão endividados sem saber. O que significa isso?
Hiperconexão mais aceleração, mais produção, mais compulsão é igual a fórmula da desconexão do Ser e do sentir, há uma ausência de presença. A busca contínua de consumo nos ilude que estamos realizando algo enquanto gastamos nossa vida. Sim, gastamos nossa vida!
Uma forma simples de entender: ao consumir estamos gastando um tempo de nossa vida que foi alocado em produzir. Produzimos, fizemos dinheiro e estamos gastando aquele tempo de vida em adquirir algo. E, as pessoas seguem se escravizando, se endividando para depois ter que colocar mais tempo de sua vida em juros para adquirir algo que não tinham capacidade de ter. Nessa confusão, ainda se iludem com fórmulas mágicas onde jogos de apostas acabam por consumir mais tempo de sua vida.
É uma matemática que não fecha. O que desejamos tanto e, ao mesmo tempo, não conseguimos dar valor? Como a vida de muitos se tornou uma engrenagem onde não sabem o que é importante para eles e se tornam endividados e compulsivos buscando soluções mágicas?
Nesse cenário, saber lidar com o nosso tempo de afeto, de experiência, e de curiosidade se torna um luxo. Saber que esse tempo onde a vida é vivida permitindo que a alma esteja lá na experiência, na presença do espírito, é o que nos torna mais humanos e saudáveis.
NATAL: VIVA A RECONEXÃO
Dessa forma, desejamos a todos que no Natal encontrem uma oportunidade para se reconectar, se emocionar e celebrar a possibilidade de uma vida de comunhão, confraternização e solidariedade.
Que, em 2026, consigamos estabelecer uma desaceleração das vidas automáticas e a reconexão com uma vida de valores claros onde podemos produzir, mas sem esquecer que o tempo e como vivemos possam ser um norte para as escolhas com propósito, impactando de forma positiva na nossa saúde mental.
Um 2026 com tempo para amar, compartilhar bons momentos com as pessoas que importam, para se encantar com coisas simples da vida, para explorar novas cores e sabores, para produzir com leveza e sentido. Um 2026 de mais saúde mental.
Um abraço de toda equipe da Estação do Saber!






