A segurança como fator de saúde mental

A segurança como fator de saúde mental

Por Júlia Ramalho

Em um mundo cada vez mais frágil, ansioso, incerto e não-linear (BANI), reconhecer os fatores estressores é tão importante quanto identificar nossos pilares de segurança. Contra o aumento da nossa vulnerabilidade e do risco de adoecimento mental, devemos agir para reduzir nossas fragilidades e para fortalecer o nosso bem-estar.

O equívoco de Maslow e o aumento da vulnerabilidade

Em 1940, o psicólogo Maslow estabeleceu como as pessoas são motivadas a se satisfazer através de uma hierarquia de necessidades. Estas se iniciavam com necessidades básicas (sono, alimentação, sexo, etc), passando pelas necessidades de segurança, social, estima e terminando na necessidade de autorrealização.

Para o psicólogo, à medida em que satisfazíamos cada uma dessas necessidades, íamos atingindo a felicidade e bem-estar. Maslow foi muito criticado pela forma rígida (a forma hierárquica) como descreveu essas necessidades humanas. Por outro lado, não há dúvidas que seu modelo ajudou a descrever um conjunto de necessidades que buscamos para sustentar nossa vida e nosso o bem-estar.

Pesquisadores chineses da Universidade de Nanjing (Zheng Zheng et al., 2016) questionaram um ponto importante na hierarquia de Maslow. Na base da pirâmide ou, na necessidade básica do ser humano, não deveriam ser consideradas as necessidades biológicas, mas sim, a necessidade de segurança.

Os pesquisadores fundamentam que nenhum animal ameaçado é capaz de comer ou dormir. Assim, se não estão seguros, não conseguem satisfazer as necessidades mais “animais” e básicas. E isso não é diferente para nós humanos.

A segurança, ressaltada como a necessidade mais básica do ser humano, torna-se um norte para nós, que estamos imersos em um mundo frágil, ansioso, incerto e não-linear (BANI). Ou, como descreveu o filósofo Zygmunt Bauman, em uma “modernidade líquida”. Em várias reflexões, ele fala sobre a condição de nossa sociedade contemporânea, marcada pela fluidez, volatilidade e transitoriedade das relações sociais, econômicas, políticas e pessoais. A sociedade contemporânea, com suas constantes mudanças tecnológicas, gerou um estado constante de risco e vulnerabilidade, mas também de conforto.

O conforto que obnubila o risco

E, em nome desse conforto, seguimos mais acomodados. Essa ambiguidade paradoxal foi cunhada como “Zona Cinza”  por Victor Hermann, em seu livro de mesmo nome. O autor nos alerta que estamos vivendo num espaço enevoado, em que a fronteira do legal e ilegal, entre causa e efeito, inovação e colateralidade, crime e acidente se confunde diante das exigências de progresso.

Em nossa sociedade contemporânea e capitalista, o impulso à imprudência é inerente e representa um risco adicional. Em nome do conforto e da necessidade de vivermos a vida de mil possibilidades, seguimos obnubilados, com a visão turva, não vendo o risco da vida sem limites. Acomodados ao conforto, seguimos negligenciando riscos, sem nos preocupar em construir nossos pilares de segurança.

Hoje, a grande maioria de nós não tem que levantar cedo para ir buscar água para o banho, abrimos a torneira e aí está. Temos a informação e o mundo na palma de nossas mãos. Podemos aprender quase tudo a um preço infinitamente menor. Podemos nos conectar com as pessoas nos quatro cantos do mundo.

Mas isso tudo não tornou nosso viver mais fácil, ao contrário. Podemos tudo, passamos a querer tudo e sofremos para fazer escolhas. Não por acaso, mais de 75% do brasileiro encontra-se endividado. Fantasiamos que a vida tecnológica e confortável é uma garantia, mas, diante de qualquer dificuldade, tendemos a sucumbir. Pequenos desafios se tornam enormes frustrações.

Enquanto seres humanos, os dados nos levam a crer que estamos nos tornando cada vez mais frágeis psicologicamente: há uma crescente epidemia global de adoecimento mental. Nos tornamos mais vulneráveis aos gatilhos externos e internos que precipitam cada vez mais crises. Esquecemos de cuidar de nossos pilares de segurança, enquanto buscamos cada vez mais conforto, sem avaliar os riscos. Nesta toada, o uso de inteligência artificial sem a visão crítica e ética nos promete um futuro complexo de potencial devastador.

Resgatar o conceito de segurança é urgente! Se somos seres de falta, se temos limitações, se os recursos físicos, financeiros, naturais são limitados, lidar com um cenário que nos torna cada vez mais vulneráveis exige retomar o reconhecimento do risco. E, desenvolver pilares de segurança para lidarmos com o mundo incerto e vulnerável é um caminho a ser pensado.

Mas afinal, o que são esses pilares de segurança? Esse é o tema do nosso próximo texto.